segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Edmond Plauchut

Por:  Alice Melo

Foi em 1906 que Santos Dumont voou num avião pelo centro de Paris e ganhou o título de pai da aviação. Apesar de o inventor ser de origem brasileira, o “esporte de alto risco” só aterrissou deste lado do Atlântico algum tempo depois. Em 22 outubro de 1911, na cidade do Rio de Janeiro, um mecânico chamado Edmond Plauchut aceitou um desafio anunciado pelo jornal “A noite” e levantou voo num aeroplano francês para ganhar a recompensa de dez contos de réis. O aventureiro quase concluiu o itinerário – que consistia em sair da Praça Mauá, contornar a Ilha das Cobras e pousar na Ilha do Governador – mas, por um motivo misterioso, caiu no mar antes de completar a trajetória. O prejuízo foi só material. Plachut não ficou ferido e ainda entrou para a história como o homem que inaugurou a aviação no Brasil, apesar das controvérsias.
O feito foi grande. Segundo jornais da época, pessoas encheram a Avenida Rio Branco (antiga Avenida Central), ruelas da Lapa, janelas de edifícios e praças da zona portuária carioca. Quando Plauchut deu a partida no motor, os populares gritaram em coro seu nome. Afinal, os brasileiros nunca tinham visto tal fenômeno, apenas demonstrações de outros tipos de voo, como o que aconteceu no mesmo dia no bairro de São Cristóvão, quando uma aviadora espanhola decolou num balão bem na frente do jardim zoológico da cidade.
 
História pouco estudada
 
Mas, apesar da relevância do episódio, por quê ele caiu então no esquecimento? Henrique Lins de Barros, professor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e autor de Santos Dumont e a invenção do voo, explica que o início da história da aviação no Brasil praticamente não é estudado e muitos de seus detalhes, por permanecerem longe dos olhos da pesquisa, são deturpados e modificados ao longo do tempo.
Uma das poucas informações que circulam na internet sobre Edmond Plauchut, por exemplo, diz que ele teria sido mecânico de Santos Dumont. O trecho foi copiado e colado por inúmeras pessoas, aparecendo inclusive em uma monografia do curso de engenharia da UNB, defendida em 2009. “Não há qualquer relação entre Plauchut e Santos Dumont. Durante minhas pesquisas sobre Dumont não encontrei sequer nome parecido com o dele entre os mecânicos. Achei inclusive num site criado por uma neta ou bisneta de Plauchut um depoimento dela dizendo que isso tudo é um mal entendido”, comenta Henrique.
 
Desafios eram moda
 
A dificuldade de se encontrar registros do piloto se deve também ao fato de que, naquela época, teria sido comum a profusão de concursos efêmeros pelo mundo: nada era duradouro ou tinha uma frequência, o que tornou ainda mais difícil o interesse pelos acontecimentos esparsos. Henrique explica que a aviação só se consolidou como meio de transporte de passageiros – tal como conhecemos hoje – no fim da década de 1920. “No início, a aviação era um esporte, desafio fantástico. Um avião desses carregava uma pessoa, voava meia hora, era muito frágil. A situação só começa a mudar durante a Primeira Guerra, quando ele se estabelece como arma de combate e aí são desenvolvidos aviões maiores”, conta.
O professor ainda acrescenta que, ao fim do conflito mundial, em 1918, os aviões passam a carregar não só um ou dois passageiros, mas também pequenas cargas, como cartas. Daí para frente, a técnica da aeronáutica foi melhorando e, em 1927, já surgia no Brasil a Varig, fazendo transporte de pessoas entre Rio, São Paulo, Porto Alegre. A produção de aviões só ganhou força no Brasil mesmo durante a década de 1950, quando a criação do ITA alimentou o embrião da Embraer, hoje uma das maiores empresas aeronáuticas do mundo.
“O motor aumenta a velocidade, dá como que um arranco, corre cerca de cem metros, desprende-se do solo, baloiça e sobe em direção ao mar, perto de 200 metros. Os assistentes desse espetáculo, mudos à sua partida rompem em vivas e bravos o aviador Plauchut, desnorteando o cordão de guardas civis que em um instante cedeu. A massa popular precipita-se para o cais da Prainha, de onde momentos antes desatracara a lancha com a família do aviador, rumo à Ilha do Governador, e por sobre onde agora pairava Plauchut, a fender o espaço, atormentado pela chuva e sem quase poder avistar 500 metros avante, pelas nuvens que o cercavam”. (Jornal do Brasil, 23 de outubro de 1911, página 5)

Fonte:

http://www.revistadehistoria.com.br/secao/reportagem/cem-anos-de-aviacao
 

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